InícioDesenhosNatali Zagory: uma ucraniana para quem a arte é tão natural como...

Natali Zagory: uma ucraniana para quem a arte é tão natural como o respirar


Natali Zagory é uma talentosa artista ucraniana, natural de Kiev, que viveu durante muitos anos na Crimeia, antes da ocupação, em 2014. Saiu do seu país após a agressão russa. Procurou em Portugal o refúgio necessário para procurar a paz e exercer a sua arte. Encontrou-o na Figueira da Foz. Há algum tempo que acompanho o seu trabalho, numa ponte estabelecida pelo bem conhecido mestre Victor Costa. Como exemplo humano, social e artístico dos tempos que correm convidei-a para uma conversa ao jeito de entrevista e tertúlia, para memória presente e futura.

– Qual foi o percurso académico e profissional?

Sou professora desde 2013, ensinando crianças e adultos em aulas de pintura, desenho, artes e ofícios. Aplico nos meus trabalhos mais de 20 técnicas de pintura e criação. Projectos para pinturas de roupas, bijuterias de couro, cerâmica, pintura em acrílico, óleo, aguarela, qualquer material gráfico do lápis ao papel. Antes da guerra leccionei num estúdio de arte e, em 2021, fiz uma exposição pessoal de pinturas e desenho intitulado “O tempo muda a realidade”.

– É fácil encontrar inspiração para os trabalhos?

Criar para mim é como respirar e falar. Na verdade não consigo deixar de fazer isso, porque faz parte da minha estrutura de personalidade. Os meus alunos são uma fonte de inspiração para mim. A arte em geral é uma forma de dizer algo para o qual é difícil encontrar palavras. Estes são os meus sentimentos e experiências como mulher, como artista, na abordagem a questões transcendentais da humanidade. Assim, o que me inspira é a felicidade inexprimível e a alegria da inspiração, tão natural como respirar.

– O que transmite a tua arte?

Diz na realidade aquilo que eu quero dizer, pois a arte é a minha linguagem. Vivemos no mundo material, mas sempre há algo mais, o que não podemos ver, mas podemos sentir. Este é o mundo das energias subtis.

– Como encaras a própria produção artística?

Costumo olhar de fora, como o espectador percebe o meu trabalho. Para mim é importante se eles sentiram a vertente espiritual, saber o que sentem. É sempre um mundo repleto de descobertas incríveis. Na realidade trata-se de uma profunda reflexão: o que significa ser um artista, uma profissão, um estilo de vida, um caminho espiritual. A capacidade de ver a beleza e olhar para a essência das coisas.

– Onde te enquadrar no movimento artístico?

Tudo o que faço, sinto e entendo, enquadra-se na arte moderna. Tento usar técnicas e materiais clássicos e transformá-los de acordo com os meus sentimentos. Dou o exemplo da pintura chinesa. A unicidade talvez esteja no tocar das cordas internas das almas humanas. É gratificante perceber que consegui ser ouvida, no toque único, a perfeição das formas nas curvas das linhas… Os meus trabalhos são únicos e resultado de tudo que vi e estudei. Procuro criar uma nova realidade, abrir novos horizontes da arte. Procuro inspirar as pessoas a descobrirem o fluxo divino do Criador, dentro de si mesmas.

– Fala-nos um pouco sobre a técnica e criatividade que aplicas…

Tecnicamente estou em busca experimental. Por exemplo, aqui em Portugal, conheci a arte do graffiti e agora uso sprays nas minhas pinturas. As minhas imagens são mulheres, eu sou mulher e através desta imagem é mais fácil para mim transmitir os meus sentimentos. Organizo e participo em sessões de nudez, onde cada gesto, cada pose da modelo significa algo que mais tarde flui para a tela imagens místicas das minhas mulheres cósmicas. No processo criativo procuro respostas para as perguntas eternas da humanidade: quem sou eu? Por que eu vim a este mundo? Qual é a minha missão?.

– Como foi o acolhimento em Portugal?

Devo assinalar a recepção calorosa da comunidade artística portuguesa, que me aqueceu a alma e ajudou a abrir novos fluxos de inspiração pelos quais sou extremamente grata. Verifico a existência de uma conexão em todos os eventos em que participei que se encaixam como peças de uma quebra-cabeças de um quadro completo.

– Sentes-te realizada?

Sim, tenho conseguido divulgar a minha arte, partilhá-la com o mundo. Participei nos seguintes projectos: 3 Faces de Água (exposição no Museu da Água, em Coimbra); Cabedelo Art Experience; 6 Varze Artes exposição pela Paz; Encontro de Artes em Paço de Arcos, Galeria Victor Costa exposição “The Last but not the least”; Exposição no Nacional Coimbra “Colectiva de Natal”; “A Caminho da Paz”, no CAE; e participação em muitas exposições na Magenta, Figueira da Foz.

Dou aulas de arte para crianças ucranianas e portuguesas na art galleria, da Magenta, desde Junho de 2022. Continuo, por outro lado, a dar aulas online para os meus alunos ucranianos! Aulas simples e claras, baseadas na formação académica e experiência, na forma de oficinas divertidas e calorosas, o principal local para nos expressarmos com arte.

– Pensas no regresso à Ucrânia?

Não consigo responder a essa pergunta. Fazer planos de longo prazo é muito difícil. Eu realmente gostaria apenas que a guerra acabasse. O mais rápido possível!

Entrevista: João Pinho, Historiador e investigador

Publicada na edição em papel do “Campeão” de 5 de Outubro de 2023

 



Source link

RELATED ARTICLES
- Advertisment -

Most Popular

WhatsApp
Precisa de ajuda?
👋 Olá
Nosso suporte está online no WhatsApp.